Perfeccionismo, distorção. Jornal Hoje em Dia 08-02-2011.

O número de pessoas perfeccionistas que têm chegado aos consultórios é crescente. O mundo moderno demanda excelência, rapidez, conhecimento diversificado e informações precisas em tempo recorde. As cobranças externas estão cada vez mais intensas. Com isso espera-se que um profissional esteja sempre atualizado e altamente especializado.
O equívoco do perfeccionismo como uma qualidade tem ganhado lugar em muitas empresas- o que, consequentemente, contribui para o amento do problema. Existe uma distorção muito difundida de que o valor estaria no que se realiza, aparenta ou consegue, e não no que se é. Nesse novo conceito de vida, o ser perfeito é uma obrigação que deveria ser cumprida por todos.
O maior desejo dessas pessoas é a aprovação dos outros à sua volta, a fim de se sentirem aceitas, amadas e seguras de si. Entretanto, o seu comportamento de cobrança e esquiva propicia superficialidade e conflito nas relações. As pessoas perfeccionistas não se contentam com o usual e mediano, querem sempre mais. Elas possuem regras rígidas a respeito de si e algumas vezes a a respeito dos outros.
Para o perfeccionista, não existe espaço para o erro, pois isso seria sinônimo de fracasso total, mesmo que esse erro não tenha implicado em grandes comprometimentos. Isso o torna escravo dos êxitos, levando-o muitas vezes a se esquivar de situações de risco por medo de se frustrar caso não consiga fazer que esperava de si
Alguns perfeccionistas produzem muito e bem, o que dá a falsa impressão de que ser perfeccionista é bom. É comum nessas pessoas pensamentos facilitadores que acabam sendo sabotadores. Como por exemplo: “Eu só consegui este emprego porque me cobro muito”. O problema, no entanto, não está em querer ser bom, competente, capaz, mas sim, na cobrança de ser perfeito. Almejar melhorar e se esforçar para isso é maravilhoso, desde que se consiga conviver com as eventuais falhas e fracassos. O sucesso não deveria ser avaliado pelo resultado, mas sim pelo esforço.
Perfeccionistas pensam que a perfeição previne sofrimento, pois não há erros. Mas dessa meta irrealista decorre uma frustração quando não conseguem o que esperam de si. Elas entram num círculo vicioso e se cobram mais tentando controlar o incontrolável. Pensam muito sobre o que deveriam ter feito, se distanciando, assim, de suas metas- o que muitas vezes gera depressão.
Podemos perceber que o perfeccionista apresenta sérias distorções cognitivas que precisam ser desafiadas a fim de torná-lo uma pessoa mais flexível e de bem com a vida. A Terapia Cognitiva, portanto, é um excelente instrumento, pois propicia que o indivíduo perceba seus pensamentos e cobranças e se questione se eles estariam colaborando para a realização das suas metas. Assim, fica claro que o perfeccionismo é uma atitude compensatória de crenças disfuncionais. O desafio dessas crenças, portanto, colabora com a percepção de que todos têm limitações em determinadas áreas e isso não faz ninguém inferior e que o fato de não ser bom em tudo não é uma falha, mas o natural.
Dessa forma, a terapia cognitiva tem muito o que fazer no trabalho com os perfeccionistas, pois ajuda a reestruturar as crenças, o que permite entender o fracasso como um caso isolado e não uma constante na vida, acarretando também uma visão mais otimista- e, nem por isso, menos realista.

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Curso no Instituto Beck na Filadélfia.

fotos beck institute

Em fevereiro de 2011 estive no Instituto Beck na Filadélfia onde tive o prazer e a honra de participar de um curso que teve a presença do próprio Aaron Beck criador da Terapia Cognitiva. Dr Beck, Dra Judith Beck e Dra Leslie Sokol nos presentearam ao partilhar conosco o saber e suas experiências profissionais. A diretoria da ABPC esteve presente. Arnaldo, em pé atrás do Dr. Beck, Oriana, em pé ao lado do Arnaldo e Renata Borja de pé ao lado da Dra. Judith.

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Driblando o stress

Entrevista TV GLobo- MG TV- 03 de janeiro de 2011.

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Prevenindo a Síndrome do fim de ano


Entrevista na TV Record, programa Hoje em Dia.

Geralmente todo começo de ano as pessoas fazem planejamentos das metas para o ano novo. Entretanto, nem sempre avaliam a viabilidade delas. Quando as metas são fáceis, rapidamente conseguimos cumpri-las o que nos gera satisfação. As metas difíceis demandam mais dedicação, persistência e organização. O não cumprimento das metas detectado no balanço de fim de ano, associado à nostalgia gerada pela proximidade das festas pode acarretar uma tristeza gerada pelas idéias de fracasso, abandono, incapacidade……. Neste momento, reconhecer os nossos méritos mesmo que não tenhamos conseguido cumprir TODAS as nossas propostas ajuda na superação das dificuldades. Colecionar fracassos não colabora para a prevenção destes, muito pelo contrário, enraíza a nossa sensação de ausência de recursos para o enfrentamento de problemas, o que acaba por gerar um ciclo vicioso de pensamentos negativos. Muitas vezes isso que chamamos fracasso pode ser somente o efeito de uma expectativa irrealista para determinada meta. Mas como identificar o que seria realista ou não? Metas realistas são metas viáveis, aquelas que sabemos que temos condições de cumprir. Metas que envolvem terceiros não são realistas, pois dependem de outros, e portanto tornam-se incontroláveis.
Ter ciência da nossa limitação reconhecendo a impossibilidade de perfeição possibilita a valorização de outras conquistas e nos torna mais flexíveis. Essa flexibilidade cognitiva nos direciona ao otimismo realista que nos impulsiona a seguir vivendo de forma mais assertiva.
Que tal flexibilizar só por hoje e criar metas novas e viáveis para 2011? Que tal pensar nos momentos bons que passamos com as pessoas que já não estão mais entre nós, ao invés de ficarmos nos lamentando ou perguntando porque elas não estão mais aqui? Que tal pensarmos que só tivemos um ano ruim, mas que o próximo será melhor?
Quem se propuzer a fazer isso me conte no fim do ano quais foram os resultados.

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Superando a Crise? Uma reflexão após o mar de lama que desceu sobre a região serrana do Rio de Janeiro.

Na última semana o Brasil inteiro acompanhou estupefato, o resultado das chuvas principalmente nos Estados do Rio, Minas e São Paulo. No Rio são mais de 650 mortos, e em Minas são 17 mortos e 82 cidades decretaram situação de emergência. São Paulo, Paraná e Santa Catarina sofreram com os alagamentos. Esses eventos catastróficos que podem envolver ameaça à vida são grandes geradores de crise. Então a pergunta é: como lidar com ela?
Todo ser humano passa por várias situações de crise durante a vida, crise no relacionamento, no trabalho, nos estudos, crise gerada pela morte de um ente querido, e crises geradas por fatalidades, ou desastres naturais como é o caso. Uma crise se caracteriza pela dificuldade ou impossibilidade que uma pessoa encontra em resolver problemas utilizando seus recursos e métodos usuais, o que causa geralmente resultados inesperados sejam eles positivos ou negativos. A crise na maioria das vezes é temporária, mas não é incomum se prolongar ou até mesmo tornar-se uma sobrevida para alguém. O fator de temporalidade contribui para o término da crise, pois entender que esse é um momento difícil que passará, possibilita uma motivação para continuar lutando, o que provavelmente ajuda a vencer as dificuldades com mais facilidade. Ao passo que pensar na crise como uma constante, fará dela parte da nossa vida, o que provavelmente gerará uma desesperança com relação ao futuro podendo causar uma desmotivação para viver. Isso é o que eu denomino sobrevida, estar vivo e não conseguir aproveitar as oportunidades e ou até mesmo rejeitar as soluções que aparecem avaliando-as como “imperfeitas” ou falhas.
Os últimos acontecimentos no Brasil propiciaram que várias pessoas e famílias vivenciassem uma crise. Essas pessoas perderam não só entes queridos, mas perderam suas casas e principalmente seus sonhos. Essa catástrofe gera um desequilíbrio psicológico causado pela constatação do risco real corrido e pela incapacidade de enfrentamento do problema, o que gera ansiedade. É muito comum nessas situações cognições como: “ O que será de mim agora?” ou “Porque Deus foi permitir que isso acontecesse logo comigo?” ou “ O que eu fiz de errado para merecer isso?” .
Essas perguntas são perguntas sem resposta o que gera ainda mais ansiedade e torna o sofrimento circular e acaba colaborando para uma rigidez cognitiva que contribui para o sofrimento.
Mesmo pessoas mais flexíveis e equilibradas não estão isentas de vivenciar uma crise numa situação como essa. É fato que essas últimas têm uma tendência a saírem com mais facilidade da crise, mas isso não é determinante. Erikson dizia que as crises não são necessariamente negativas, mas pontos de crescimento. Quantos testemunhos positivos temos de pessoas que vivenciaram crises?O campeão olímpico de vela Lars Grael é uma dessas pessoas. Ele teve uma perna amputada depois de uma acidente e não apenas voltou a velejar como faz parte, atualmente, da equipe permanente de vela olímpica. O que dizer, então, sobre o pianista João Carlos Martins que perdeu grande parte do movimento das mãos e voltou a tocar e hoje desenvolve um projeto de popularização da música clássica e de inclusão social através da formação musical de jovens carentes e é regente da Filarmônica Bachiana Sesi/SP? Esses são grandes exemplos de superação, de pessoas brilhantes que mesmo após uma crise continuam sendo brilhantes. Mas aí dirão; “eu não sou como eles, então não tenho capacidade de sair da crise”. Mas existe alguém igual a outro alguém? Quantas pessoa “normais” não se tornaram atletas paraolímpicos depois de acidentes? Quantas outras não encontraram um sentido de vida na ajuda humanitária, ou ajuda ao próximo depois de uma perda irreparável e sentem felizes assim.
Podemos sim fazer diferença! Tanto quem ajuda como quem é ajudado. Se a crise for encarada como passageira e nos envolvermos em novos planos de vida, mudamos a nossa realidade e muitas vezes também as realidades dos que nos cercam. É bem verdade que num primeiro momento, criar um sentido de vida, é praticamente impossível, pois a demanda é por necessidades básicas. Mas a solidariedade alheia faz muita diferença para essas pessoas. A ajuda, o conforto e a segurança oferecida por outros direciona a uma estrutura que pode minimizar os danos causados pela tragédia. É pena que muitas vezes essa solidariedade só perdura por algum tempo, mas ela pode ser determinante para que a pessoa ajudada possa superar a crise mais tarde. O comprometimento e solidariedade permitem com que as pessoas se sintam amadas, queridas e especiais, mesmo que elas não tenham tido vínculo anterior com o sujeito da ajuda, o que pode criar uma força interna que os motiva a seguir em frente e agradecer por estarem vivos e ainda quem sabe, algum dia, até mesmo se perceberem fortes, capazes e únicos com uma missão a cumprir?
E quem está fora da zona de risco pode perguntar: E eu com isso? Nós mesmos, expectadores da crise alheia também nos tornamos vulneráveis quando começamos a avaliar se corremos os mesmos riscos que afetaram outros. Se avaliarmos negativamente os nossos recursos de enfrentamento para uma suposta situação podemos nos deparar com uma crise. Compreender que ao nos atormentar com perguntas sem resposta ficaremos mais vulneráveis e inaptos para a solução do problema pode ajudar na mudança de paradigma. Para que perder tempo com o que não se pode responder? Tratemos de nos questionar sobre o que nos compete, o que NÓS podemos fazer. É tudo uma questão de custo e benefício, e escolha. Eu posso escolher me fixar nas perdas ou posso escolher alcançar novos objetivos. Eu posso escolher ajudar e me beneficiar com essa atitude, porque quem ajuda sente-se gratificado pela atitude, ou continuar parado me omitindo levando a vida de sempre. A decisão é nossa.

Dedico este post à Cris Guerra e a tantos outros que tem ajudado pessoas a sair da crise com seu exemplo de superação e vida.

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